(In) Conveniente

Havia alguns dias que as mais finas lojas de vestidos para festa, estavam sempre lotadas de moças a procura do traje perfeito, aquele que faria qualquer homem suspirar de desejo. Sim desejo. Para nós, as belas moças de Arandela, não era permitido o simples ato de amar. Então o que restava eram os interesses políticos e os desejos carnais, que faziam com que as pessoas se casassem. Depois de um certo tempo eu acho que as pessoas acostumam se a vida ao lado de um estranho. As mais belas moças do reino, entre dezesseis e dezenove anos deviam comparecer a um baile, no qual famílias poderosas deviam fazer com que seus jovens filhos trocassem alianças. Nesta troca de favores, nunca era levado em conta os sentimentos das vidas em discussão, era como se nos fossemos fantoches sem vida. Eu odeio isso. Daria tudo para não ter nascido neste século horroroso. E mais ainda porque neste ano eu vou completar dezesseis anos e fui solicitada para comparecer aos bailes. Isso era um problema que me atormentava a semanas.
-Eu não acho que esteja preparada para casamentos. Digo a Lucy, minha mãe, na tentativa de comovê-la. Porem e tudo em vão.
-A última palavra já foi dada Katerina! Ela grita. Você irá aos bailes, vai encontrar um bom marido, e de preferência um que tenha títulos importantes, e claro. Ela ressalta.
-Assim seja. Eu digo e parece que sua raiva diminui, pois sua expressão muda. Fica mais terna.
-Katy querida, eu só quero o melhor para você, terá de entender. Decido provocar a fera mais um pouco:
-Me fazendo casar com um completo estranho? E assim que me deseja o bem? Sai correndo aos prantos, preciso ficar longe de tudo isso, nem que seja por só alguns minutos. Ainda bem que ela não veio atrás de mim. Eu me lembro do meu local preferido, e para lá que eu vou, decido de última hora.
-Eu me lembrarei deste lugar quando não tiver mais liberdade por causa de meu futuro marido. Enchendo me com as obrigações de uma esposa.
O lugar e um pequeno jardim com um córrego, com uma pequena ponte e possui várias espécies de deslumbrantes plantas florais. Alem de um coreto. Eu o descobri por acaso quando certa vez fugi de casa, eu tinha treze anos apenas, e estava revoltada ao descobrir que não poderia me casar com uma pessoa de minha escolha própria. Como se não tivesse o direito. Realmente não tinha. Era frustrante não ter direitos sobre mim mesma, afinal eu já sabia que certamente haveria lua de mel, que ele me tocaria. Maldito. Eu ainda nem o conhecia e já o odiava. E eu repudiava essa ideia que me assolava nos últimos tempos. Mas agora era preciso pensar numa maneira de livrar-me desse destino. Tinha de ser inteligente. Esquivar-se. Não podia permitir. Mas que faria, nada podia fazer para mudar, somente esperar que meu futuro marido fosse bom moço e me respeitasse. Ódio.
Pelo que pareceram horas depois, eu percebi que deveria voltar para casa antes do toque de recolher. O que pensaria minha família? Tirando qualquer pensamento indecente de minha mente paro em frente ao portão de minha casa. Suspiro e entro. Passo por todos sem cumprimentar. Meu pai, minha mãe e até meu irmão estão na sala de estar, todos juntos, planejando contra mim. Tenho certeza. Mas eu não me importo. Ouço alguém falar:
-Querida, temos ótimas notícias para você! O que seria ótimo para mim? Me pergunto mentalmente.
Fingindo interesse, só para deixar todos felizes, vou ao encontro de todos eles.
-O que seria tão importante assim a ponto de causar uma reunião particular? Fico feliz pela minha formulação da frase. Nunca fui boa em falar.
-Bem...Minha mãe começa a falar.
-Katy seu pai e eu achamos que você deveria...Renovar seu vestuário.
Quase morro de decepção com o que minha mãe acaba de dizer, achei que seria algo realmente importante, mas e certo que ela só esta preocupada com a minha vestimenta para que eu possa me animar mais com a história do baile, pois ela sabe que adoro moda. Isso e chantagem. Respiro para que possa responder a altura.
-Mae, sinceramente eu não consigo imaginar como tenha chegado a tal ponto, mas já aviso que não será tão fácil assim me convencer, pois eu irei resistir muito a isso. Não e de meu desejo comparecer a este baile.
Vejo ela esmorecer. Tenho a terrível ideia de aceitar tudo só para vê-la feliz, mas tenho que resistir, me fazer de forte. Quando na verdade estou apavorada com tudo isso. Acho que em todo o pais sou a única filha de que não quer se casar, que deseja ser livre. As garotas de minha idade são muito submissas a seus pais. Se eu fosse assim com certeza seria mais fácil, mas eu simplesmente não consigo baixar a cabeça ao que não me parece certo ou conveniente.
(***)
Muito a contragosto minha mãe me arrastou para o ateliê da senhora Cablenn, a costureira mais famosa da região. Disse que nas lojas, os modelitos se repetiriam e eu precisava de algo exclusivo. Algo para impressionar. Quando viu a senhora Cablenn logo começou a falar que tinha um pedido especial e que pagaria o que fosse necessário para que eu ficasse deslumbrante, mais do que já era por natureza. Ao ouvir isso revirei os olhos. Quanta modéstia. Mamãe as vezes passava dos limites. Enquanto tiravam minhas medidas eu pensava em como minha vida mudaria, eu já não seria mais livre daqui a alguns meses. Estaria certamente casada. Não queria mais pensar nisto. Iria aproveitar o meu tempo pensando em coisas que me fazem bem, como a minha melhor amiga, Tessa. Quanto tempo que não a vejo, certamente deve estar nervosa com o baile, assim como eu, mas por motivos bem diferentes. Ela ansiava com o dia do baile, com seu casamento. Já eu daria tudo para não participar do circo.
-Não e algo discutível. Minha mãe fala como se adivinhasse meus pensamentos. Como ela me conhecia bem. Queria que ela pudesse ouvir meus pensamentos para ver como estou sofrendo com isso.
(***)
Minha mãe está animada, o vestido já chegou, e, tenho que dizer, e perfeito. Não quero demonstrar nenhuma animação para que minha mãe não pense que eu estou feliz com essa ideia de casamento. O vestido e rendado, de um rosa muito claro que contrasta com meus cabelos castanhos claro e meus olhos verdes. Delicadeza para uma moça delicada, foi como disse a senhora Cablenn. E parece que isso convenceu minha mãe, pela quantia de dinheiro entregue, o que fez a senhora Cablann quase pular de alegria. Achei o vestido lindo, mas era de certa forma constrangedor, já que deixava várias partes de meu corpo expostas. Não sei se gostava disso. Nuca fui de usar a sensualidade a meu favor, apesar de ter todos os meus tributos físicos impecáveis. Sim, eu sou consciente de que sou uma moça muito atraente, que chama atenção de vários rapazes. Até meu próprio irmão diz que se não fosse meu irmão, iria se casar comigo, nem que fosse a força. Sorrio ao lembrar dele, meu irmão, como estava crescido. Um verdadeiro homem.

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